Perdoem-me os outros alunos, mas este texto vai ser especialmente atirado aos corações da Susana, do Edu e da Leonor. Atirado, sim, mas com jeito, para não ferir;) Os outros, meus jovens companheiros tão descrentes, ouçam-no. E reflictam. Ah! Está claro que não podemos mudar o mundo... está claro, sim. Mas ... oh alunos, podemos sempre tentar;)
(Tudo isto a propósito da aula de hoje. E de outras, em que o vosso olhar é superfície impermeável)
Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos. Basta a fé no que temos. Basta a esperança naquilo que talvez não teremos. Basta que a alma demos, com a mesma alegria, ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia. Chegamos? Não chegamos? Partimos. Vamos. Somos."
Não vos falarei de Cesário, nada direi a propósito d' O Primo Basílio, não quero agora saber do Realismo e pouco me importam as categorias da narrativa. Dou-vos, antes, música... não creio que conheçam, talvez não a consigam apreciar, ainda assim, partilho-a convosco, para que não digam o que disse quando me cruzei com ela: "Que pena só a ter descoberto agora".
Chama-se Balada para un Loco . Com letra de Horacio Ferrer e música de Astor Piazzolla , foi composta em 1969.
São muitos os artistas que já a interpretaram. Deixo-vos apenas a música, depois a interpretação da Dulce Pontes. Magistral, quanto a mim. Deixo-vos também a letra. E que o arrepio que me toma, vos aqueça na solidão desta descoberta.
Um abraço a cada um.
(Recitado)
/
Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste?
Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mi...
Cuándo, de repente, detras de un árbol, se aparece el.
Mezcla rara de penultimo linyeray de primer polizonte en el viaje a Venus.
Medio melón en la cabeza,
las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies
y una banderita de taxi libre levantada en cada mano.
Parece que solo yo lo veo,
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan,
los semáforos le dan tres luces celestes
y las naranjas del frutero de la esquinale tiran azahares.
Y así, medio bailando y medio volando,
se saca el melón, me saluda,
me regalo una banderita y me dice:
/
(Cantado)
/
Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
No ves que va la luna rodando por Callao,
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor... ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!
/
Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión
y a vos te vi tan triste... ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!...
el loco berretín que tengo para vos.
/
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombóna desvelarte el corazón.
¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
/
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad...
¡Ya vas a ver!
/
(Recitado)
/
Y asi diziendo, el loco me convida
a andar en su ilusión super-sport
Y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!
/
De Vieytes nos aplauden: "¡Viva! ¡Viva!",
los locos que inventaron el Amor,
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.
/
Nos sale a saludar la gente linda...
Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!:
provoca campanarios con su risa,
y al fin, me mira, y canta a media voz:
/
(Cantado)
/
Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Trepate a esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!
/
Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Abrite los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir...
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!
/
(Gritado)
/
¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca el y loca yo...
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
apesar das chicotadas na alma, não se cansará esta voz que me apregoa em dádiva.
apesar da morte anunciada, serão eternas, na finitude, todas as utopias que, de megafone em punho, espalho no azul tormentoso das ruelas que ensombram alguns dias.
apesar dos gumes afiados dos olhares fantasmagóricos,
apesar das ironias, friezas cadavéricas,
apesar da tristeza, apesar,
há horas em que o horizonte se funde no caminho dos meus passos Aqui e sublima a entrega desprendida. é aí o momento dos versos e de uma não sei que cumplicidade, nascida algures, entre poemas.
ou numa chávena cheia do teu suor, que me depositaste no coração.
Lembras-te, pequena, de quando eras ainda mais pequena e a tua mãozinha agarrava o meu menor dedo como gesto de dar a mão? Eras mais doce do que os doces que te comprava e os teus caracóis dourados brilhavam mais que o sol. Eras o meu anjinho e ainda hoje és o meu bebé. Será que algum dia irás crescer para mim? . Texto de Nayara Reiter
No meio de tantos olhares de inquietação, de euforia, encontravam-se.
Cada um com a sua maneira de ser... todos tão diferentes e tão iguais... sentados à mesma mesa. No meio de tantos sorrisos, olhares de cumplicidade, meigos gestos. Todos saboreavam aquele jantar de Natal.
Subi as escadas, levando na consciência que aquilo que estava a fazer não era correcto. Parei. Era ainda tempo de desistir, mas não consegui. Aqueles olhares tinham tanta força, que era impssível enfrentá-los.
Fechei os olhos. Voltei a abri-los. Fechei-os novamente e vi a imagem de uma criança apoderar-se da minha mente. Essa criança estava feliz, abraçada a um homem que a fazia sentir-se protegida.
Respirei fundo, abri os olhos e comecei a correr tão rápido que tudo à minha volta parecia ser mais fraco do que eu.
Vi um homem à minha frente e parei diante dele.
Esse homem fixou o olhar em mim e limpou as lágrimas que escorriam pela minha face.
Abraçou-me, e da sua boca apenas sairam estas doces palavras: Adoro-te filho.
Vaga após vaga, uma imensidão de pessoas passa por mim. Odeio, no entanto é necessário, aproxima-se a época de maior consumismo do ano, ou então assim seria se não fosse esta maldita crise, que para mim sempre existiu, só que a diferença é que agora falam dela com mais ênfase na comunicação social.
Distraído, dou um encontrão num homem que fumava; reparo que olha impacientemente para dentro de uma loja como se esperasse alguém, não digo nada, nem a mais simples e rudimentar das frases, aquela que todos os pais ensinam aos filhos e que naquele momento simplesmente esqueci: peço desculpa. Continuo a andar, o meu passo é rápido, não sei porquê; sou levado pelo frenesim de pessoas que neste momento mais se assemelham a insectos. Quando páro já não me encontro dentro do centro comercial; o meu irmão vem atrás de im. Sem trocarmos uma palavra, encostamo-nos a uma parede: ele fuma e pensa, eu penso.
Chego a casa e, ao abrir a porta, já não sei se me deparo com a entrada ou com a saída de um lugar que, no momento, já nem sei qual é.
O silêncio invade-me e eu, imóvel, sinto o expressar do vazio no meu ser.
O presente lar doce lar marcado na minha lista telefónica foi-se tornando lembrança, uma memória passada, escrita num diário. Diariamente foi desaparecendo um pouquinho de nós. Esse nós que já nem sei ao certo a quem inclui, se me inclui a mim.
Chego a casa, abro a porta e, na ausência de um olá, saio novamente e fecho a porta atrás.
anoiteceu em chuva e deu em chuvoso mais este dia de espera.
corre nas veias um sangue jacente, que teima no espectáculo triste.
anoitece. chove. está frio.
adormeço na espera.
Há quem diga, e muito bem, que problema atrai problema. Começa por ser uma coisa sem importância à qual nem damos o devido valor, porque nos achamos capazes de a resolver, e quando vemos que não é bem assim e abrimos os olhos para a realidade, acordamos do nosso pesadelo e as coisas começam a complicar-se. Perde-se a vontade de tudo, perde-se a vontade de viver, tornamo-nos terrivelmente pessimistas, ganha-se um oceano de presente para chorarmos e não nos resta mais nada a não ser gastar cada gota, sem a preocupação de economizar, sem nos preocuparmos com a conta da água...
Se bem que, às vezes, gostava de saber quanto gasto em lágrimas, principalmente nestes últimos tempos.
Tantas luzes, luzes por todo o lado, luzes de todas as cores, decorações. Onde quer que vá é o que mais encontro. Conversam à minha volta, não presto atenção, são quase oito da noite e, como todos os anos desde que me lembro, vou passar o Natal na casa dos mesmos familiares. O movimento monótono do carro provoca-me sono, sou assolado por recordações de Natais anteriores, tudo parece igual. Chegamos ao destino às oito e quando saio do carro sou atingido por um vento gélido; aconchego o cachecol e relembro o meu desejo de criança de um diar nevar na noite de Natal.
São dias especiais, simplesmente porque ela entra pelo quarto adentro com o seu sorriso contagiante, cheia de vida e diz... "Tia, posso contar-te um segredo? ... Amo-te!"
Para mim basta e o mundo pára.
É a minha menina, aquela que todos os dias à noite me pede, como que desesperada, para ficar um pouquinho com ela e fazer-lhe um carinho.
O seu olhar transmite paz e com um simples abraço, qualquer atribulação ou tempestade passa a não existir...
Muito mais do que uma criança linda, é a minha bebé que tem uma Barbie Fashion. . .
No âmbito literário, quanto maior a degustação dos textos, tanto mais proveitoso se torna o sumo que daí se extrai. Ora, pareceu-me premente a necessidade de sistematização das ideias nascidas da discussão em torno de um poema de Antero de Quental, a saber: “A um poeta”.
.
A UM POETA
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno…
Escuta! É a grande voz das multidões!
são teus irmãos, que se erguem! São canções…
Mas de guerra…e são vozes de rebate!
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
e dos raios de luz do sonho puro,
sonhador, faze espada de combate!
.
Antero de Quental
.
1ª possibilidade de interpretação e justificação deste parecer face à contra-argumentação que gerou:
. Olhar o poema como forma de exortação que o sujeito poético faz a um tu, que vive acomodado “à sombra dos cedros seculares”, ou seja, acomodado na tradição de uma poesia antiga, comparando-o com a passividade de um levita que deixa passar por si a vida, embrenhado que está no seu culto. É na segunda estrofe que esse convite à acção toma uma forma mais veemente, com a utilização do imperativo verbal “Acorda!”, que se vai revestindo de um tom gradativo ao longo de todo o poema: “Acorda!”, “Escuta!” “Ergue-te..” e, finalmente “…faze espada de combate!”. Poder-se-á verificar uma referência ao lúgubre mundo romântico na metáfora dos “cedros seculares”, bem como na das “larvas tumulares”, no qual este poeta que é exortado poderia estar mergulhado. Esta incitação traz consigo um argumento de peso, referido na personificação e metaforização do sol, pois surge aqui como o ideal revolucionário que afugenta a tradição romântica.
Surgiu um contra-argumento que referia o sem sentido desta visão, na medida em que, sendo o eu o espelho da revolução, jamais iria incitar o inimigo a participar da sua luta. Se por um lado vejo assertividade neste ponto de vista, por outro não creio tratar-se de uma razão capaz de destruir a análise proposta, na medida em que, imbuído do seu ideal, numa audácia de convicção plena, total segurança nos princípios que o movem e profundo entusiasmo ideológico, o eu poético pode exortar o tu a que se deixe seduzir pela revolução.
Também no sentido de contrariar esta primeira análise, surgiu nova questão, que referia a sua impertinência, na medida em que, no primeiro terceto, o sujeito lírico, dirigindo-se ao tu, lhe diz que “são teus irmãos que se erguem”, pelo que não faria sentido conotá-lo com os poetas ultra-românticos. Uma vez mais reconhecendo validade nesta visão, não a entendo suficientemente capaz de deitar por terra a que inicialmente foi proposta, na medida em que não vejo como inconciliável a argumentação do sujeito poético ao referir-se às “multidões” como “irmãos deste poeta”, pois ao apelidá-los desta forma não implica que haja uma concordância ideológica entre os primeiros e este tu solitário. Poderá ser uma exortação, um convite, um aliciamento à união deste com a multidão guiada pelo ideal defendido pelo sujeito poético.
Para terminar, surgiu nova questão no último terceto: o sujeito lírico clarifica que a missão do poeta é ser um “soldado do Futuro”, cuja espada de combate são “os raios de sol do sonho puro”. Posto isto, é pertinente que se entendam “os raios de sol do sonho puro” como a própria poesia, com a qual deverá lutar. Vozes se levantaram, defendendo que estes raios de sonho, são a metáfora da nova ideologia pela qual o poeta deve lutar. Concordo indiscutivelmente. Mas… qual a arma de que um poeta dispõe para lutar? Bem sei que me responderão: “com a poesia”. Nesse caso, concordaremos, creio, que o que se pretende dizer na última estrofe, será qualquer coisa como: Ergue-te, poeta, sonhador, combate, nos teus versos (NA TUA POESIA) pelos raios de luz do sonho (POR ESTE IDEAL NOVO). Dificilmente vejo a separação entre uma e outra coisa, na medida em que, a luta não se faz sem o poema.
2ª possibilidade de interpretação:
.
Tratar-se de um poema que incita à acção. Sabe-se, a partir do título, que o tu a quem o sujeito lírico se dirige é um poeta, de “espírito sereno”, acomodado “à sombra dos cedros seculares”, ou seja, alguém que vive na sua pacatez, com uma postura passiva perante o que o rodeia, a quem o sujeito poético exorta à acção. De que forma é que o tu deverá agir? Servindo-se da poesia como a voz da revolução; a poesia como arma para intervir socialmente e mudar o mundo.
No fundo, esta interpretação difere da anterior apenas na não aceitação da identificação do tu com os ideais ultra-românticos. Tratando-se este apenas de alguém “adormecido” para o Ideal que desponta e que é convidado pelo sujeito poético a agir e a lutar por ele.
3ª possibilidade de interpretação:
.
“E se o tu for o eu?”. Questão aventada para a mesa que me causa o espanto e a imediata aceitação.
De facto, o poema possibilita essa leitura, aliás como já se escreveu “Oh tu que sou, olha o dia que passa!”, frase na qual o eu se desdobra e se dirige ao tu, a quem, sendo ele próprio, trata como entidade separada e alerta para a urgência da acção dado o rápido e inevitável fluir do tempo. Também este poema pode exprimir a voz do eu lírico que se trata como outro, após uma tomada de consciência. Assim, o eu poético, ciente do ideal emergente, mas também da sua inércia, dirige-se a quem é, numa segunda pessoa, exortando-se à luta.
Ora não deixa de ser uma leitura original, que traz com ela uma imperiosa necessidade de recolocação deste poema no seio da produção literária anteriana.
À partida, “A um poeta” insere-se numa segunda fase na obra de Antero de Quental, aquela que corresponde à do apostolado social, ou seja, à difusão da nova ideologia. Nesse sentido, e aproximando-nos agora do seu percurso biográfico, e identificando o eu com o próprio Antero, diríamos que se inclui num estado luminoso, apolíneo, entusiasmado. No entanto, à luz desta aproximação biográfica, se no eu entendermos Antero, que se dirige a um tu, que mais não é do que ele próprio, que se encontra adormecido “à sombra dos altares”, da religião, então deveremos inserir este texto numa fase de pessimismo, da qual o poeta se sente impelido a sair.
Não deixa de ser uma leitura original, que não recuso, no entanto, para a fazer, será necessária esta reflexão em torno da produção poética do autor e do lugar que nela ocupa este poema.
Se puderes Sem angústia E sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras sómetade. E, nunca saciado, Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar e vendo O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, tereconheças… . Miguel Torga . abraço a cada um. é bom este tempo de partilha. a.m.
Os textos e imagens mantêm os direitos dos respetivos autores e titulares. Para questões de autoria, fontes ou créditos, consulta a página Créditos e contacto.
Luís de CamõesGil VicenteAlmeida GarrettPadre António VieiraAntero de QuentalCesário VerdeEça de QueirósFernando PessoaJosé SaramagoCamilo Castelo BrancoTrindade Coelho
A criança, embora atravesse uma «lôbrega jornada» e espaços ameaçadores, sente-se segura porque é transportada ao colo da mãe. Esta imagem simboliza a confiança do sujeito poético na proteção divina: depois de renunciar às ilusões e às formas transitórias do Ideal e da Paixão, entrega-se a Deus e encontra a paz. A renúncia não representa, assim, uma submissão imposta, mas um desprendimento consciente que liberta o coração da inquietação. A liberdade interior manifesta-se na serenidade final, sugerida por «coração liberto» e pela repetição de «Dorme».
A Razão continua a ser indispensável para distinguir factos de opiniões, avaliar argumentos, reconhecer a manipulação e resistir aos preconceitos. Ao orientar escolhas conscientes e o diálogo, pode sustentar a defesa da justiça e da liberdade, mesmo perante informações contraditórias ou discursos extremados. No soneto, Antero de Quental associa expressamente a Razão à luta coletiva pela emancipação: «Por ti, na arena trágica, as nações / Buscam a liberdade entre clarões». A referência mostra que a Razão não é apenas uma capacidade individual, mas também uma força ética e transformadora da sociedade.