NA REVISTA




__________
Texto: excertos de Aparição, de Vergílio Ferreira
Fotos de Ana Prado, à excepção das nº 1, 6 e 9, retiradas da internet.
Ler mais →
Évora em Aparição
Eis-me em face do Liceu e da minha estrada final. Não "escolhi" a profissão: de algum modo, saíra-me.
Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens, como te lembro, como me dóis.
... os teus olhos calmos, Ana o homem que se enforcou, estava uma tarde bonita, Ana, uma luz pura, filtrada em violeta, uma alquimia de ouro, as azinheiras estáticas, a sua sombra em cauda solene ("...porque a questão é só esta: que lei é que..."), onde a grandeza da vida?
Vagueei longo tempo através das ruas, facetadas de brando, pelo puro gosto de me sentir sozinho, sem ideias, anulado de silêncio. Uma cidade fantástica erguia-se imaginada, numa geometria árida de superfícies lisas, com faixas de sombra e luz estiradas dos candeeiros às esquinas, com filas de janelas altas e cerradas, túneis de arcarias desertas, flechas de torres, de chaminés à altura dos astros, ângulos negros de ruas - imóvel espectro de uma civilização perdida...
O sol de Inverno iluminava a planície, já toda verdejante e a perder de vista.
Terra calcinada, deserto estéril (...)
O Alentejo era trágico, não lírico, só a praga, a blasfémia ardente o exprimia.
Parto eu sozinho pelas ruas solitárias, onde restos de serpentinas suspensas dos fios evocam a alegria morta. Entro na Sé, quedo-me suspenso da massa de coros que reboam pelas abóbabas.
Sento-me, reconciliado, nos bancos de azulejos, fechados em recantos clandestinos, vou visitar Florbela, olho-a de um banco de madeira que lhe fica em frente, medito com ela. É uma cabeça calma, triste e majestosa. Banha-se de grandeza e gravidade desde a fronte cansada, que verga sobre as mãos em repouso, até às espáduas largas, em que os pescoço se espraia. Sinto que ela prevaleceu sobre a melancolia dos séculos e que chegou até nós para nos dar testemunho. Não está bem ali, rodeada de lirismo. E imagino-a num limite da cidade, frente à planície deserta, num alto pedestal, tocando os astros...
Adeus Reitor. Até um dia, até sempre. Levo nos meus olhos, para a vida inteira, estes claustros, este silêncio, estas ruínas...
__________
Texto: excertos de Aparição, de Vergílio Ferreira
Fotos de Ana Prado, à excepção das nº 1, 6 e 9, retiradas da internet.
