Lacrimae rerum
Leitura integral do soneto
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(A Tommaso Cannizzaro)
01Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
02Quantas vezes tenho eu interrogado
03Teu verbo, teu oráculo sagrado,
04Confidente e intérprete da Sorte!
05Aonde vão teus sóis, como coorte
06De almas inquietas, que conduz o Fado?
07E o homem porque vaga desolado
08E em vão busca a certeza que o conforte?
09Mas, na pompa de imenso funeral,
10Muda, a noite, sinistra e triunfal,
11Passa volvendo as horas vagarosas...
12É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
13E, perdido num sonho imenso, escuto
14O suspiro das coisas tenebrosas...
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A interrogação do destino e o silêncio do universo
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E LUTONoite · Destino
Silêncio
01 · vv. 1–2A Noite interpelada
A Noite é chamada a revelar o sentido da vida, numa associação paradoxal entre conhecimento e fim.
Apóstrofe e personificação.
02 · vv. 3–4O oráculo esperado
O sujeito atribui à Noite um saber superior, de que espera esclarecimento.
Metáfora do oráculo.
03 · vv. 5–6Os sóis e o Fado
A interrogação estende-se aos astros e às almas, figurados como uma coorte conduzida pelo destino.
Comparação e personificação.
04 · vv. 7–8A condição humana
O ser humano vagueia sem encontrar uma resposta capaz de o consolar.
Interrogação retórica e «em vão».
05 · vv. 9–11O funeral da Noite
A Noite passa solene e indiferente, sem revelar o que sabe.
Metáfora funerária e tripla adjetivação.
06 · vv. 12–14Dúvida e luto
O poema termina com um universo que parece lamentar-se, mas não oferece qualquer explicação.
Personificação e desfecho aberto.
A interrogação da Noite não produz revelação: o sujeito escuta apenas a dor difusa de um universo enigmático.
A procura de uma certeza sobre o destino humano confronta-se com o silêncio da Noite; restam a dúvida, o luto e a perceção do sofrimento universal.
A expressão latina «Lacrimae rerum» — «lágrimas das coisas» — remete para Virgílio e ajuda a compreender a projeção do sofrimento humano no próprio universo.
?Para pensar: Explica o valor da personificação da Noite ao longo do soneto.
?Para pensar: Analisa o contributo da imagem do «imenso funeral» para a construção do sentido do poema.
Texto do poema: Fonte literária ↗ · Grafia modernizada. O v. 5 segue a leitura «Aonde vão teus sóis», presente na edição histórica dos Sonetos Completos; outras transcrições apresentam «Aonde são teus sóis».
oráculo
Resposta ou revelação atribuída a uma entidade dotada de saber superior.
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