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margem. · revista literáriasobre · Antónia Mancha
Quem escreve à margem

SOBRE
A MARGEM.

Retrato de Antónia Mancha
Antónia Mancha

O texto não acaba na última linha.

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Alberto Caeiro

Uma autobiografia

Chamo-me Antónia Mancha, nasci a 19 de Janeiro de 76.

Vim ao mundo numa terra à margem de mim, talvez por isso tenha de lá saído, para, na ausência distante, a trazer verdadeiramente entranhada no coração descompassado.

Ama-se mais o que nos falta.

Assim, aquilo que sou é feito da aridez solitária dos campos rasos, da profundeza do cante e de uma saudade muda, porque dizê-la é de fracos e a gente da minha terra é rija e não tem saudade, conforma-se com a ausência.

Há muitas ceifeiras na minha terra. E eu queria ser ceifeira, mas sou professora de Português. A maldita literatura tornou maior esse anseio, querendo, inconscientemente, ser consciente de que sinto muito mais do que penso e por isso tenho de pensar muito mais do que sinto, para não me perder nas searas de mim.

Além-Tejo é casa (re)construída de pássaros nos beirais. Em Lagos, que me habita, os pássaros voam.

Chamo-me Antónia Mancha, nasci a 19 de Janeiro de 76 e um dia hei-de morrer.

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