Ao ti' Nostácio

O que por aqui vos deixo hoje nada tem a ver com os conteúdos programáticos da nossa disciplina. Trata-te de um texto de poesia popular, da autoria daquele que foi o primeiro poeta que conheci. Era meu vizinho, trazia-me muitas vezes pela mão e desenhava, para eu deleite, nas pedras da fonte onde, na minha infância (não, alunos, não foi há tanto tempo assim!!:), as mulheres iam lavar roupa sob a nogueira e os figos negros da horta do Gato.
Era o ti' Nostácio Pires.
Já vos havia, creio eu, falado nele. Hoje partilho convosco a sua escrita. Ou melhor, um texto dentre as centenas que deixou.

O Campo de Aviação

I
Eu ouvi uma piada
que achei muito engraçada
de verdade, achei-a boa.
Isto que eu ouvi dizer
foi (1)quando foram fazer
o aeroporto em Lisboa.

II
Quando foi ao começar,
máquinas a trabalhar
e engenheiros a medir.
Chegou, então, um velhote,
embrulhado num capote
para explicações pedir.

III
- Digam-me senhores engenheiros,
a terra destes outeiros(2),
assim, toda aplanada...
desculpem a descrição(3),
mas esta terra então(4),
a que vem a ser destinada?

IV
- Esta terra, meu senhor,
vai dar ao país valor
e até às outras nações.
Esta terra aplanada,
depois de bem preparada,
destina-se a aviões.

V
O velho ficou calado,
mas, daí por um bocado,
disse, então, estas razões:
- Vão-se meter num sarilho,
ela nem sequer dá milho,
como há-de dar aviões!?

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Nota: Introduzi a pontuação, que não existe no original
(1) - deu-se;
(2) - pequena elevação de terra; monte;
(3) - indiscrição;
(4) - afinal.

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