Considerações a propósito da celeuma da aula de Literatura (06.01.09)
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno…
Escuta! É a grande voz das multidões!
são teus irmãos, que se erguem! São canções…
Mas de guerra…e são vozes de rebate!
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
e dos raios de luz do sonho puro,
sonhador, faze espada de combate!
Olhar o poema como forma de exortação que o sujeito poético faz a um tu, que vive acomodado “à sombra dos cedros seculares”, ou seja, acomodado na tradição de uma poesia antiga, comparando-o com a passividade de um levita que deixa passar por si a vida, embrenhado que está no seu culto. É na segunda estrofe que esse convite à acção toma uma forma mais veemente, com a utilização do imperativo verbal “Acorda!”, que se vai revestindo de um tom gradativo ao longo de todo o poema: “Acorda!”, “Escuta!” “Ergue-te..” e, finalmente “…faze espada de combate!”. Poder-se-á verificar uma referência ao lúgubre mundo romântico na metáfora dos “cedros seculares”, bem como na das “larvas tumulares”, no qual este poeta que é exortado poderia estar mergulhado. Esta incitação traz consigo um argumento de peso, referido na personificação e metaforização do sol, pois surge aqui como o ideal revolucionário que afugenta a tradição romântica.
Surgiu um contra-argumento que referia o sem sentido desta visão, na medida em que, sendo o eu o espelho da revolução, jamais iria incitar o inimigo a participar da sua luta. Se por um lado vejo assertividade neste ponto de vista, por outro não creio tratar-se de uma razão capaz de destruir a análise proposta, na medida em que, imbuído do seu ideal, numa audácia de convicção plena, total segurança nos princípios que o movem e profundo entusiasmo ideológico, o eu poético pode exortar o tu a que se deixe seduzir pela revolução.
Também no sentido de contrariar esta primeira análise, surgiu nova questão, que referia a sua impertinência, na medida em que, no primeiro terceto, o sujeito lírico, dirigindo-se ao tu, lhe diz que “são teus irmãos que se erguem”, pelo que não faria sentido conotá-lo com os poetas ultra-românticos. Uma vez mais reconhecendo validade nesta visão, não a entendo suficientemente capaz de deitar por terra a que inicialmente foi proposta, na medida em que não vejo como inconciliável a argumentação do sujeito poético ao referir-se às “multidões” como “irmãos deste poeta”, pois ao apelidá-los desta forma não implica que haja uma concordância ideológica entre os primeiros e este tu solitário. Poderá ser uma exortação, um convite, um aliciamento à união deste com a multidão guiada pelo ideal defendido pelo sujeito poético.
Para terminar, surgiu nova questão no último terceto: o sujeito lírico clarifica que a missão do poeta é ser um “soldado do Futuro”, cuja espada de combate são “os raios de sol do sonho puro”. Posto isto, é pertinente que se entendam “os raios de sol do sonho puro” como a própria poesia, com a qual deverá lutar. Vozes se levantaram, defendendo que estes raios de sonho, são a metáfora da nova ideologia pela qual o poeta deve lutar. Concordo indiscutivelmente. Mas… qual a arma de que um poeta dispõe para lutar? Bem sei que me responderão: “com a poesia”. Nesse caso, concordaremos, creio, que o que se pretende dizer na última estrofe, será qualquer coisa como: Ergue-te, poeta, sonhador, combate, nos teus versos (NA TUA POESIA) pelos raios de luz do sonho (POR ESTE IDEAL NOVO). Dificilmente vejo a separação entre uma e outra coisa, na medida em que, a luta não se faz sem o poema.
2ª possibilidade de interpretação:
No fundo, esta interpretação difere da anterior apenas na não aceitação da identificação do tu com os ideais ultra-românticos. Tratando-se este apenas de alguém “adormecido” para o Ideal que desponta e que é convidado pelo sujeito poético a agir e a lutar por ele.
3ª possibilidade de interpretação:
De facto, o poema possibilita essa leitura, aliás como já se escreveu “Oh tu que sou, olha o dia que passa!”, frase na qual o eu se desdobra e se dirige ao tu, a quem, sendo ele próprio, trata como entidade separada e alerta para a urgência da acção dado o rápido e inevitável fluir do tempo. Também este poema pode exprimir a voz do eu lírico que se trata como outro, após uma tomada de consciência. Assim, o eu poético, ciente do ideal emergente, mas também da sua inércia, dirige-se a quem é, numa segunda pessoa, exortando-se à luta.
Não deixa de ser uma leitura original, que não recuso, no entanto, para a fazer, será necessária esta reflexão em torno da produção poética do autor e do lugar que nela ocupa este poema.
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