Março, 2

Era 6ª feira deste dia, era meio dia e trinta e cinco. Tu partias e eu, a 300km, dava uma aula de poesia e depois ia ao teatro.

É 2ª feira, era meio dia e trinta e cinco e pedi-lhes que me deixassem fazer uma chamada. “-É assim a vida, filha…não estás a dar aula? Vai lá para a aula!” Tremia-lhe a voz. Tremia-me o coração.
Era 6ª feira, era uma e trinta e cinco, ia a casa almoçar, estacionei na subida do Sete Mares para uma sopa e depois ir para o CCL, quando soube que, a 300km, sem que eu soubesse, tinhas ido embora.
É 2ª feira, era uma e trinta e cinco, evitei a subida do Sete Mares, entrei em casa e fui sorrir ao teu sorriso na fotografia silenciosa.
Era 6ª feira, cheguei a casa e esperavam-me as pessoas de sempre. Entrei e chorei-te, entorpecida, ao ver-te naquela fotografia em que amas com o sorriso do teu olhar. Depois fui vestir-me de preto integral, logo eu, que disse que nunca o faria, apenas poria “um trapo preto ao pescoço”, como costumavas ironizar.
Ao descer as escadas, dormente, pensei: quando aqui voltar, terei enterrado o meu pai.
É 2ª feira, estou vestida de preto integral, mas com um “trapo” colorido ao pescoço. Apesar das lágrimas, serena, voltou a certeza de que nada te pode roubar de mim: as “parvoeiras” de corrermos atrás um do outro, o comer melancia “à bacro”, as quadras hilariantes através das quais comunicávamos durante semanas, a tua “mota quitada”, com que subiste rampas improvisadas para motocross na tapada do meu padrinho, as conversas longas debaixo da laranjeira e tudo o que não se diz, porque é nosso.
É 2ª feira, “meu sereno pescador de horas vagas” e estás vivo, porque nunca te vou deixar morrer.

Foto: Antónia Mancha

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