Devagar


Ficámos a conversar sobre a vida. O tempo que foge. Ele queria continuar, claramente. E vi o espanto quando me viu desmarcar compromissos por ele. Para prolongar aquela conversa serena, profunda, honesta, ali, encostados à varanda do Bloco B.

Que nunca tinha falado assim, nem tanto tempo com um professor, confidenciou-me, sorrindo atrapalhado. Eu falei-lhe da falta de tempo , da desumanização da escola. Aproveitei, ainda, para lhe dizer que sorri pouco.
Depois, despedimo-nos e desejámo-nos bom fim de semana. Já nas minhas costas, ouvi "obrigado, professora!"
Andamos robotizados de sala em sala, a ouvir à pressa, a conversar à pressa, a abraçar à pressa, a consolar à pressa. A morrer. Devagar.

Foto: Antónia Mancha

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