Cautelosamente incautos

.
.
 
Coraçam já repousavas,
Já não tinhas sujeiçam,
Já vivias, já folgavas;
Pois porque te sojigavas
Outra vez, meu coraçam?



Sofre, pois te não sofreste
Na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste,
Sofre, pois não conheceste
Como te outra vez perdias;
Sofre, pois já livre estavas
E quiseste sujeiçam;
Sofre, pois te não lembravas
Das dores de que escapavas:
Sofre, sofre, coraçam!

                                                                                             Jorge de Aguiar (séc. XV), Cancioneiro Geral

É noite. Nos palácios aperaltados, poetas cortejam com versos d'amor e dor, damas extasiadas e ávidas de galanteios e mesuras. Ignorando o que a rodeia, num tempo e espaço interiores tão distantes das pompas sociais, solta-se uma voz tormentosa, indignada e crítica, que interpela a inconsequência de um coração irresponsável, apanhado novamente no ardil da paixão. A voz de um eu que, num exercício de distanciamento e retórica, se desculpabiliza dos males do amor, personificando o coração e acusando-o de irreflexão, pois conhecendo ele as tormentas do sentir e delas já se tendo livrado, se deixa novamente apanhar na intrincada teia das emoções.
Há revolta nesta voz, pois conhecendo já o coração a calmaria, o repouso sem 'sojeiçam', a vida folgada sem o jugo do amor, como pode, pois, imponderadamente, voltar a perder-se nas ondas tempestuosas dos afectos? Que válida é esta indignação! É a de quem conhece os cantos à dor e as suas entranhas salgadas. É a voz da razão que sabe o lugar último do sofrimento. Veja-se o Imperativo ao serviço dessa irritação pela ingenuidade de quem tropeça no caos do amor e por ele se deixa guiar rumo à perdição.
Ouçamos essa voz: é a da incapacidade, a que sabe ser impossível travar o caudaloso curso do rio que transborda todas as margens, a que sabe nada poder contra o inevitável. A que conhece o sofrimento e, por isso, teme. Não houvesse coração e tão mais serenas as horas. Tão mais quietos os dias.
 


Amar ou Odiar 



Amar ou odiar: ou tudo ou nada.
O meio termo é que não pode ser.
A alma tem de estar sobressaltada
P'ra o nosso barro se sentir viver.


Não é uma cruz a que não for pesada,
metade de um prazer não é um prazer;
e quem quiser a alma sossegada
fuja do mundo e deixe-se morrer.



Vive-se tanto mais quanto se sente:
todo o valor está no que sofremos.
Que nenhum homem seja indiferente!



Amemos muito como odiamos já:
a verdade está sempre nos extremos,
porque é no sentimento que ela está.



                                                                         Fausto Guedes Teixeira


E para que havemos de querer horas serenas e dias quietos, se a Eternidade nos aguarda? Fazendo fé no 'Menino Jesus' de Caeiro, sempiternos, de serenidade e quietude, serão os nossos dias (isto se fizer sentido contar o tempo na Eternidade...)
Pois que venha o amor e o ódio. Que venha o sobressalto e sintamos o nosso barro estalar sob as pedras que os dias, tantas vezes, nos atiram; que venham as estradas íngremes e tropecemos nos nossos próprios cacos. Que venham cruzes vergar-nos de desgosto e prazeres excessivos, que desnorteiem todos os rumos traçados e nos desconcertem de espanto. E se as portas do medo forem intransponíveis e quisermos a 'alma sossegada', clamemos pela morte do corpo, já que será a única coisa que, em nós, ainda viverá.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Hino à Razão

Ideal

Na Mão de Deus