Cautelosamente incautos
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Coraçam já repousavas,
Já não tinhas sujeiçam,
Já vivias, já folgavas;
Pois porque te sojigavas
Outra vez, meu coraçam?
Sofre, pois te não sofreste
Na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste,
Sofre, pois não conheceste
Como te outra vez perdias;
Sofre, pois já livre estavas
E quiseste sujeiçam;
Sofre, pois te não lembravas
Das dores de que escapavas:
Sofre, sofre, coraçam!
Jorge de Aguiar (séc. XV), Cancioneiro Geral
Amar ou Odiar
Amar ou odiar: ou tudo ou nada.
O meio termo é que não pode ser.
A alma tem de estar sobressaltada
P'ra o nosso barro se sentir viver.
Não é uma cruz a que não for pesada,
metade de um prazer não é um prazer;
e quem quiser a alma sossegada
fuja do mundo e deixe-se morrer.
Vive-se tanto mais quanto se sente:
todo o valor está no que sofremos.
Que nenhum homem seja indiferente!
Amemos muito como odiamos já:
a verdade está sempre nos extremos,
porque é no sentimento que ela está.
Fausto Guedes Teixeira
E para que havemos de querer horas serenas e dias quietos, se a Eternidade nos aguarda? Fazendo fé no 'Menino Jesus' de Caeiro, sempiternos, de serenidade e quietude, serão os nossos dias (isto se fizer sentido contar o tempo na Eternidade...)
Pois que venha o amor e o ódio. Que venha o sobressalto e sintamos o nosso barro estalar sob as pedras que os dias, tantas vezes, nos atiram; que venham as estradas íngremes e tropecemos nos nossos próprios cacos. Que venham cruzes vergar-nos de desgosto e prazeres excessivos, que desnorteiem todos os rumos traçados e nos desconcertem de espanto. E se as portas do medo forem intransponíveis e quisermos a 'alma sossegada', clamemos pela morte do corpo, já que será a única coisa que, em nós, ainda viverá.
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