Da esperança e de quando não existe




E de novo, de novo os cantares de amigo. E de novo a voz da donzela, a voz da insegurança. Inquieta-a que a promessa feita não seja cumprida. Inquieta-a que o ‘amigo’ não torne mais, quando lhe havia assegurado o contrário. Inquieta-a a inquietude que a inquietação lhe devolve. Tem medo. E da solidão exasperada, interpela as ‘flores do verde pino’, tentando obter respostas e, assim, sossegar a angústia por que se deixou tomar. Veja-se a interjeição permanente com que se dirige à natureza, sinta-se a dor, a mesma dor que a leva à interpelação de Deus, ser omnisciente, talvez a última esperança de saber de quem ama…
Vem depois a calmaria: personificada, a natureza assegura-lhe que, antes do combinado, o amigo surgirá para lhe dar a tranquilidade que, sem saber, lhe roubara. Voltará, e dizer que ele traz a serenidade será redutor, já que ele é a própria serenidade. É o único lugar, imenso lugar, onde ela poderá descansar o coração.
Mas... e quando a inquietação é a única certeza e tudo se resume ao silêncio aterrador da solidão?


Esta é outra voz, a da desesperança. Magnífica voz deserta que, do ermo de quem é, solta o grito do desalento de quem amou e se perdeu.
Do presente, analisa-se o passado, afinal é lá que reside a causa de tamanho padecer, e faz-se todo um percurso reflexivo que desemboca na constatação de um ser que se reconhece senhor de toda a solidão.
O distanciamento aconteceu, o 'amigo anda no mar', onde 'fui onda,/Marinheira e aberta': note-se o perfeito do verbo, que denuncia uma acção terminada, neste caso a predisposição para o amor; note-se a carga erótica que subjaz às palavras deste eu feminino, cujo corpo, 'represado', indicia uma ansiedade física; assinale-se depois a interpelação ao 'verde pino/(...)verde mastro da terra até ao céu' e destaque-se aqui a referência à verticalidade que une terra e céu, como a visão da transcendentalidade do Amor, aquele para quem o eu se fechou, num ouriço de medo e desilusão. E prossegue a reflexão: recorda-se do 'tempo que mais tempo desdobrava', (lembro os 'peixes verdes' que há nos olhos dos amantes que moram nos versos do 'Adeus', de Eugénio de Andrade), o tempo sem tempo que é o tempo de todos os que amam; recorda a inconsequência com que se entregou àquela tempestade, clara metáfora da intranquilidade que o amor devolve, espaço etéreo onde cabe o todo:  verdade e fantasia. E agora? Neste presente, retoricamente, o eu questiona-se sobre aquilo que é, constatando-se apenas 'só um rastro,/Da água verdadeira doutro mar.' Percebe-se só, mais do que isso, reconhece-se imcompletude. Vastidão erma onde nada cabe, além da dor.

 

Não deixem de ouvir o poema na voz de Dulce Pontes. O texto vale por si e é admirável, é certo, mas a interpretação musical que aqui é feita ainda o enriquece mais. Para ouvir, clique na seta 'Play'.
Letra: Alexandre O'Neill
Música: Alain Oulmain
Voz: Dulce Pontes
in Momentos, 2009

Tudo fica por dizer relativamente a este segundo poema. Que o que aqui se aflora seja apenas um ponto de partida para a descoberta deste texto absolutamente genial.
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Agradeço à Prof.ª Ana Albuquerque a clareza das ideias e a disponibilidade para as partilhar comigo. Às professoras Susana Ricardo e Carla Glória, a objectividade e boa disposição com que voluntariamente deram a conhecer as suas interpretações:)

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