Outras artes cabem nestas Folhas de Literatura, por isso, o primeiro post desta casa que aqui se renova é sobre música. Poderia até acrescentar que é sobre o ícone maior da nossa música, mas isso seria incorrer num lugar-comum enraizado, proferido levianamente e já tão distante de qualquer sentido ou sentir. Como não quero enveredar pelo chavão empedernido, limito-me a dizer que este texto é sobre Amália. Amália Rodrigues, dando-vos a liberdade de a definirem. Pela minha parte, há muito que o fiz… nos idos da minha adolescência, no intervalo das canções que faziam a moda da altura, descobri a plenitude daquela voz, levando-me essa descoberta a outra francamente angustiante: a da imperfeição e da pequenez das palavras, que nunca dizem verdadeiramente a emoção pura. (Talvez as dos poetas sejam diferentes, nas dos poetas encontro essa intersecção do dizer com o sentir, mas desconfio. Desconfio sempre, pois se são fingidores, os poetas, que outra saída, senão o próprio labirinto?)
Esta incapacidade de verbalização, e porque me inquieta o comodismo da palavra de pedra, levou-me à criação, nos dias, da casa do silêncio, onde me recolho numa fuga ansiosa e necessária à trivialidade sufocante que me toma com tanta frequência e que me é tão fácil aceitar. Habito, então, esse retiro de calmaria, tendo por companhia as vozes de quantos me incendeiam o sangue de promessa e caminho. (Aqui se revela o segredo dos ‘fones’ da prof.ª Antónia.) A voz de Amália é uma dessas presenças na minha solidão e é-o pelas razões que acima se apontam, mas que tão longe estão daquilo que verdadeiramente as enforma.
Reparo que o texto vai longo… tanto para dizer que não sei dizer o que me acontece ao ouvir Amália cantar, ainda assim, falo hoje de Amália. Para que se não esqueça a voz do meu povo azul, que há dez anos se vestiu de negro para a despedida, esse povo a quem a morte calou a alma, ao levar-lhe a única voz que o soube definir. Falo hoje de Amália e terei de falar de popularidade e erudição. Falo hoje de Amália e terei de falar de versos e poemas. Falo de Amália e terei de referir a tristeza e a solidão.
Mas, falando hoje de Amália, só uma palavra se enche de sentido: Saudade.
Deixo-vos este 'Grito'. Doloroso. Plangente.
E sobretudo não se assustem se o acharem triste. Lembro-vos Alberto Caeiro: 'Saúdo-os e desejo-lhes sol,/E chuva, quando a chuva é precisa'. Também a tristeza, por vezes, é necessária. Até porque é qualquer cousa natural.
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