ainda Amália

Quando decidi escrever sobre Amália, tinha a intenção de fazer uma espécie de arquivo alargado do qual constassem os aspectos mais significativos da sua vida e da sua carreira. Tentei fazê-lo, no entanto, apercebi-me da responsabilidade que isso constituía, se não me quisesse limitar àquilo que já se encontra publicado aqui pela internet e assim decidi não enveredar por uma empresa de tal dimensão. Cheguei à conclusão que o melhor seria restringir-me a uma nota que assinalasse o seu desaparecimento e tentei fazê-lo: o resultado está no post anterior e como poderão verificar não cumpre a intenção inicial, já que aquilo que se pretendia um texto informativo, por isso distanciado do sentir, acabou por ser exactamente o oposto, enleando-se-me as frases na carne e apenas criando um registo profundamente pessoal de uma parcialidade absoluta. Por tal incapacidade, que me desculpem e permitam-me que passe adiante, desta vez para vos deixar com uma homenagem belíssima a Amália. Pertence a Dulce Pontes (outra das vozes sobre a qual não me sei pronunciar) foi editada no álbum 'Focus', de 2003, quatro anos após o desaparecimento da nossa diva. Chama-se 'Amália por amor'.

in 'Focus', letra de Dulce Pontes, composição de João Mendonça e Ennio Morricone, 2003

Ver letra

É certo que o post vai longo, no entanto, não poderia deixar de frisar aqui um projecto musical surgido recentemente e absolutamente indispensável. Trata-se de 'Amália Hoje', álbum lançado em Abril passado e evocativo dos dez anos do desaparecimento de Amália Rodrigues. Numa vertente pop, com músicos de quadrantes variados, surpreende pela qualidade, pela sensibilidade da abordagem, pelo cuidado nas escolhas dos temas, pela sonoridade.
No post anterior pode-se ouvir o 'Grito' de Amália, ouçamo-lo agora pela mão deste grupo. Descubram-se semelhanças e diferenças. Redescubram-se os versos. Alimentemo-nos desse grito e façamo-lo nosso para os momentos em que o desespero nos visitar. Não, não vou enveredar pelo atropelo do discurso. Fico-me por aqui, na expectativa de vos ter aí desse lado e convosco, anónima e silenciosamente, comungar.



SilêncioDo silêncio faço um gritoO corpo todo me dóiDeixai-me chorar um pouco
De sombra a sombraHá um céu tão recolhidoDe sombra a sombraJá lhe perdi o sentido
Ao céuAqui me falta a luzAqui me falta uma estrelaChora-se maisQuando se vive atrás dela
E euA quem o sol esqueceuSou a que o mundo perdeuSó choro agoraQue quem morre já não chora
SolidãoQue nem mesmo essa é inteiraHá sempre uma companheiraUma profunda amargura
Ai, solidãoQuem fora escorpiãoAi, solidãoE se mordera a cabeça
AdeusJá fui pra além da vidaDo que já fui tenho sedeSou sombra tristeEncostada a uma parede
AdeusVida que tanto durasVem morte que tanto tardasAi, como dóiA solidão quase loucura
AdeusVida que tanto durasVem morte que tanto tardasAi, como dóiA solidão quase loucura
Compositores: Amalia Rodrigues / Carlos Goncalves

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Hino à Razão

Ideal

Na Mão de Deus