(sem título)


Já nem sei o que sinto. Se sinto, não o sinto ou não o sei explicar. Insisto em viver nesta confusão entre aquilo que queria que fosse e aquilo que deveria ser, que se resume no nada que é. E assim vou perdendo o meu tempo, com essa ideia inútil de compreender-me, nessa busca inalcansável daquilo que penso nem existir. Gostava de inventar um eu para tudo ser mais fácil. Esta minha confusão que me mata. Esta insegurança que me afasta de tudo aquilo que não conheço, impedindo-me de conhecer. O que posso ganhar com esta minha arrogância, que faz de mim a mais pobre no meio dessa mediocridade. Eu gostava de Ser. Ter a certeza de que sou para não temer a procura de mim, o medo de encontrar nada. Queria saber se existe alguém que também É, para eu não Ser sozinha. Mas hoje em dia ninguém se conhece. Falamos por códigos, esfriamos com o gelo da rotina. Somos bonecos de neve a desfilar por essa neve que insiste em ser branca e prostituir a cor da pureza. Essa neve que cai nas nossas cabeças, disfarçada de chuva mais suave, escondendo o facto de a ter congelado. Mas é tão linda... a rotina é tão linda. Somos tão disciplinados! Talvez esteja na hora de dar um pontapé neste cenário que nos faz parecer meros fantoches, máquinas programadas a fazer sempre o mesmo todos os dias. Talvez esteja na hora de dar um pontapé naquele que me aponta o dedo, naquele que espera tanto de mim, ter uma acção infantil e mostrar que ainda posso ser criança, fazê-los, e a mim também, ver a minha verdadeira idade, aquela que ninguém quer aceitar. Porque é só física. Mas agora preciso dela, preciso de um tempo para descansar, poder parar de pensar, ser rebelde e inocente, poder errar e só pensar que tenho tempo para me corrigir. Não me preocupar com as horas que me prendem a obrigações aborrecidas... já fiz isso um dia... não queria voltar a ser o que era... só queria poder aproveitar o tempo que vejo passar à minha frente, acenando-me com um sinal de adeus, como se me jogasse na cara que fui deixada para trás. Na verdade, sinto-me parada lá atrás. Tudo passou e eu resolvi ficar. E fico triste. Fico triste por não vos ver, a vós que ides na frente, felizes. Mas o meu alvo também nem era a felicidade... hoje a felicidade é uma utopia. Chegamos à conclusão que ter uma família, ser feliz, ter saúde e ser amado é um sonho muito alto. Antes era o mínimo que se podia exigir. Eu não percebo. E perceber-me torna-se cada vez mais difícil. Não gosto de ser o que sou, mas causo-me orgulho. Quero uma coisa e faço outra, faço coisas que não quero. E a minha razão não sabe arrepender-se. O meu coração destrói-se. Destruo-o. Nunca lhe quis dar razão e ele não tem razão, mas é mais certo. Chateia-me o facto de não me compreender, mas nem me permito a ideia de o tornar mais fácil.

Texto de Nayara Reiter, inserido no seu Projecto Individual de Leitura

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