Intervalo

No tempo sem tempo da planície, espero qualquer coisa que seja uma aproximação do que sou. Ou do que fui.Diluiu-se no medo e na lonjura uma parte, deixando-me, um buraco, como uma janela, aberta para o vazio absoluto.

No peito, ponham-me a mão no peito e verão que me trespassam. Levaram-me para a distância e por lá me deixaram entregue ao tempo, para que ele faça a sua parte, porque o medo, sempre esse cabrão, mudou o rumo ao que, em tempos, se queria acreditar , rogando-se, que não se perderia. Afinal, a mais leve brisa levou todas as certezas assentes no que é a verdade, não o guião que nos preparam à nascença.
Uma parte de mim, perdeu-se, a outra, a outra há muito que não a encontro, por aí anda, enredada no pensamento, onde vivo a vida que não vivo.
É cedo ainda, mas já antecipo as perguntas que farei: "Ainda te lembras de mim?/ Ainda sabes de onde eu vim?/ Quem sou esta que aqui estou?".
E assim vivo, no desamparo de ser aqui, ou em qualquer parte, um intervalo de mim.

Foto: Antónia Mancha

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