O beliche não é bem um beliche, mas graças à D.G (a quem publicamente
agradeço, cheia de salamaleques), tenho, não apenas o melhor cacifo, como
também o mais arrumado. Não quero com isto dizer que, por exemplo, o da D. e da
N. esteja um desconcerto tal, que nem com uma arrecadação, se entende.
Nas aulas, tudo em ordem:
- Professora, sabe que me chamam coelho? – perguntou serenamente o G., adorável como só ele sabe ser, com dois distintos
incisivos.
Como me acontece amiúde, baixou sobre mim a clarividência, que também ontem
me tomou, e coloco a seguinte questão:
- Porquê? – enquanto me esbofeteava mentalmente.
Indignado, mas sempre tranquilo, o G. atirou-me à cara, como um estalo:
- Oh professora, então não se vê logo?!
Pois, G., mas quando te olho, eu vejo-te. Muito para além das dentolas, como lhe chamas.
E porque não vos quero levar às lágrimas, vou deixar-me destas
considerações e avançar já para o momento em que, num acesso de desespero por
nenhuma das explicações que dera a propósito da matéria ter surtido qualquer
efeito, emiti um som, cuja aproximação onomatopaica seria, não se assustem:
- Grrrrrrr!!!!!
- Ai pressora, não se
cheteie, dizia a A.
- Já estou chateada! A seguir começo a morder-vos!
E o G., que teve hoje o seu momento alto, de forma muito calma,
chamou-me e de semblante muito sério, esclareceu-me:
- Professora, (desculpem-me interromper o discurso do pupilo, mas
importa referir que, dos 100 que me cabem, este foi, até agora, o único que
pronunciou todas as sílabas deste nome que me chamam) mas eu sou só ossinhos! –
enquanto me esclarecia, esticava os seus bracinhos franzinos.
Não contente ainda com todo este meu desempenho, apercebi-me de que
tinha perdido a bolsa dos lápis. Depois de todos os que estavam na sala de
professores terem batido com a mão no peito a declarar a sua inocência, decidi
ir à sala onde estivera a dar aula.
- Toc, toc… ( hoje estou muito dada às onomatopeias).
- Sim…
- Desculpa, T., estar a incomodar-te, venho só buscar o meu estojo…
A T. procurou, eu também, a T. já andava de rabo para o ar, isso eu não
fiz, eis que um aluno coloca o dedo no ar. Silêncio para o ouvir:
-Mas a pressora saiu da sala
ao lado, é melhor ver lá.
Sorri-lhe entredentes. Agradeci. Desculpei-me. Saí.
E dou por terminado este texto.
Recuso-me a esta humilhação em praça
pública!
Mensagens populares deste blogue
01 · Análise ↗ 02 · Sistematização ↗ 03 · Ideia-chave ↗ 01 - ANÁLISE Leitura integral do soneto Seleciona um verso para ver a sua interpretação. As palavras sublinhadas abrem diretamente o glossário. Texto integral · Antero de Quental 01 Razão, irmã do Amor e da Justiça, A Razão é invocada diretamente e personificada como irmã do Amor e da Justiça. O poeta apresenta três valores inseparáveis. 02 Mais uma vez escuta a minha prece . O sujeito poético dirige-lhe uma súplica, como se a Razão fosse uma entidade superior, digna de veneração. 03 É a voz dum coração que te apetece , A procura da Razão é também afetiva: o coração deseja-a. Razão e sentimento não surgem como inimigos. 04 Duma alma livre, só a ti submissa . Há um paradoxo aparente: a alma é livre porque escolhe orientar-se pela Razão, em vez de se deixar dominar pela arbitrariedade. 05 Por ti é que a poeira movediça A expressão metafórica representa a imensidão ...
Ideal
01 · Análise ↗ 02 · Sistematização ↗ 03 · Ideia-chave ↗ 01 - ANÁLISE Leitura integral do soneto Seleciona um verso para ver a sua interpretação. As palavras sublinhadas abrem diretamente o glossário. Texto integral · Antero de Quental 01 Aquela, que eu adoro, não é feita O pronome «Aquela» aponta para uma figura feminina indeterminada. O verbo «adoro» revela a intensidade da idealização. 02 De lírios nem de rosas purpurinas , A negação afasta a figura amada das imagens convencionais de beleza floral e sensual. 03 Não tem as formas lânguidas , divinas A repetição de «Não» reforça que o Ideal não se define por atributos físicos ou por uma beleza visível. 04 Da antiga Vénus de cintura estreita... A referência a Vénus, deusa da beleza e do amor, rejeita o modelo clássico de beleza corporal. 05 Não é a Circe , cuja mão suspeita A alusão mitológica a Circe afasta o Ideal da sedução enganadora e da manipulação. 06 Compõe filtros mortais entre ruínas, Os «filtros mortais» evo...
Na Mão de Deus
01 · Análise ↗ 02 · Sistematização ↗ 03 · Ideia-chave ↗ 01 - ANÁLISE Leitura integral do soneto Seleciona um verso para ver a sua interpretação. As palavras sublinhadas abrem diretamente o glossário. Texto integral · Antero de Quental 01 Na mão de Deus, na sua mão direita, A expressão «mão de Deus» introduz uma imagem de acolhimento e proteção. A referência à mão direita pode sugerir um lugar privilegiado de segurança e amparo. 02 Descansou afinal meu coração. O coração, símbolo da vida afetiva do sujeito poético, encontra finalmente repouso. O advérbio «afinal» sugere um percurso anterior de inquietação. 03 Do palácio encantado da Ilusão O «palácio encantado da Ilusão» representa os ideais e as expectativas que antes fascinavam o sujeito poético. A maiúscula confere valor simbólico à Ilusão. 04 Desci a passo e passo a escada estreita. A descida gradual da «escada estreita» simboliza o abandono progressivo das ilusões e ...

Comentários
Enviar um comentário