Vai-te, Poesia!
























Deixa-me ver a vida exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.


Vai-te, Poesia!
Não quero cantar.


Quero gritar!

                               José Gomes Ferreira

A poesia é uma venda que impede a percepção do real. Coisa maior, de nardos vestida, oculta o quotidiano, aqui retratado como o sítio do intolerável, onde a 'carne humana' chora e onde habita o Mal, que fabrica sonhos de 'dinamite de lágrimas'.
Esta descrição disfémica permite a descoberta de um eu que, no intervalo de ser poeta, toma consciência do que o rodeia e da redoma que os versos criam. No entanto, e paradoxalmente, é justamente de versos que se serve para dizer a rudeza do real e para levantar a voz.
A poesia é grito e mordaça.

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Imagem: Edvard Munch, 'O Grito'

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