Adeus, Eugénio de Andrade

A propósito de um dos textos, surgiu a conversa sobre Eugénio de Andrade (1923-2005) e com ela o encanto ou desencanto sobre a poesia deste autor. Não sendo dos meus poetas de eleição, há um punhado de poemas que fazem a diferença, como as coisas únicas. Um deles é o "Adeus" a um amor que levou tudo, gastando as palavras e banalizando um olhar que, em tempos tinha "peixes verdes" e tudo era possível. Mas veio o frio e com ele levou a possibilidade de todas as coisas.
Deixo-vos o poema e a versão musicada, na voz da Simone de Oliveira (1938).


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

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